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A representação do negro no Modernismo

18/04/2012 | 1 Comentário

Nos dias  13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, aconteceu, no Theatro Municipal de São Paulo, um dos maiores marcos da história das artes no Brasil: a Semana de Arte Moderna de 22, que contou com exposições de Tarsila do Amaral (incluindo o famoso e emblemático quadro “O Abaporu”), Mário de Andrade, Oswald de Andrade, e muitos outros artistas.

Noventa anos depois, podemos concluir que o Modernismo foi um movimento artístico que elevou valores do povo brasileiro, anteriormente detratados. Negros e índios, antes vistos como grupos subalternos da sociedade, tanto na literatura quanto nas artes plásticas, foram trazidos para o centro da tela, no que pôde ser chamado de o “primeiro estilo genuinamente brasileiro”.

Não que o negro não tivesse sido visto antes. Pelo contrário, a literatura e a pintura, desde o século XVIII, mostram-no como incontestável integrante da história brasileira. O negro é personagem desde o Romantismo de Castro Alves em “Navio negreiro”, bem como aparece nas gravuras de Debret do início do século XIX.

No entanto, especialistas atestam que com o advento do Modernismo, no início do século XX, o negro, o índio e as minorias passaram sim a serem vistas, porém de uma forma peculiar. Segundo críticos, os modernistas fazem uma “caricaturização” da imagem do negro.

Como isso é possível? No contexto social da época, o negro havia acabado de conquistar sua liberdade e estava, aos poucos, galgando espaços na sociedade. E os artistas modernistas eram uma seleta elite intelectual formada por brancos, cultos, de famílias abastadas patrocinadas pelo desenvolvimento do café e com grande tempo de vivência na Europa. Portanto, oriundos de uma realidade bem diferente da do negro brasileiro.

Pode-se dizer que muito pouco da condição social do negro havia mudado desde a  lei de abolição da escravatura, havendo críticos que afirmam a ocorrência de depreciação das condições gerais de sua imagem.

Macunaíma, por exemplo, o herói sem caráter de Mário de Andrade, primeiro negro na formação étnico-cultural do Brasil, é um tipo preguiçoso e caricato.

- Para que a realidade social do negro fosse devidamente retratada pela arte de seu tempo, seria necessário que aqueles artistas tivessem algum grau de identificação com o tema a ser representado. Não foi o que ocorreu. Partiram de uma idealização equivocada da realidade fundamentada em valores não compartilhados por classes sociais muito distantes entre si -, ressalta o jornalista Marcos Godoy.

O Regionalismo, uma das vertentes do modernismo, também mostra o negro cercado por estereótipos. Por exemplo, em boa parte dos poemas de Jorge de Lima, autor modernista, as mulheres negras são descendentes de escravos e estão à margem da sociedade. As imagens de tortura e abuso sexual são as mais valorizadas pelo autor.

Em contrapartida, historiadores e boa parte dos estudiosos cita que os artistas do Modernismo procuraram no índio e no negro o primitivismo, os elementos primordiais da cultura brasileira que proporcionariam a reconstrução da realidade nacional, e procuraram retratar a mistura de culturas e raças existente no país.

“Representações do negro no Modernismo brasileiro: artes plásticas e música” é o nome do livro de Renato de Sousa Porto Gilioli, no qual, através de nomes significativos do estilo no Brasil, como Mário de Andrade, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Anita Malfati, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, ele discute com o leitor questões como o negro na representação nacional, música e mestiçagem cultural, o negro como curiosidade, e a estética da mestiçagem.

No prefácio do livro, o autor diz:

- Estes verdadeiros ícones das artes no Brasil olharam para o país de uma forma diferente. Suas produções, reflexões e experiências de vida alteraram a maneira como pensamos e nos percebemos. Também mudaram a forma pela qual o negro era visto e representado, fazendo-a com apuro estético, polêmica, ideais por vezes controversos e ambiguidades. Décadas se passaram e podemos ter um olhar renovado sobre a representação do negro no movimento modernista -, diz.

Apesar de opiniões divergentes, o fato é que com o Modernismo, o negro passa a ocupar o papel central da arte tupiniquim. Muito ainda se discute sobre a sua real representação e significado, porém, em se tratando da época, a sua importância política na arte é incontestável.

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Comentários (1)

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  1. Rosa Lisboa disse:

    Segundo alguns estudiosos da História da Arte Brasileira, Tarsila do Amaral, apesar de ter sido uma das maiores artista moderna brasileira, não participou da Semana de Arte de 1922, pois estava estudando na Europa e só chegou ao Brasil alguns meses depois.

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