Depois de mais de dois anos de filmagens e pesquisa, não foi fácil reduzir quase 80 horas de gravação para 80 minutos de documentário. De 20 entrevistados, a produtora e diretora brasileira, Denise Garcia, escolheu para o filme “O fardo das fronteiras” quatro protagonistas, todos eles negros que solicitaram asilo político na Alemanha.
Natural do Rio de Janeiro, mas de criação e sotaque porto-alegrenses , Denise viajou para a Europa após o sucesso de “Sou feia, mas tô na moda”,produção de 2005 que retrata a vida de mulheres do funk carioca. A primeira exibição do filme em solo alemão foi em 2006, no festival Transmediale, de Berlim.
- Depois da minha experiência no Rio de Janeiro com a favela, não consegui mais me identificar com minha própria classe: a classe média branca. Não saiu mais da minha cabeça o quanto o racismo ainda está presente no mundo moderno, algo contraditório num país rico como a Alemanha. Quando cheguei ao país, logo me perguntei: ‘como vivem os negros aqui?’ -, conta a documentarista.
Foi então que ela conheceu Mbolo Yufanyi. Natural de Camarões, ele chegou à Alemanha em 1998. O africano, que viveu três anos num abrigo para refugiados, é uma das principais vozes do documentário de Denise e também do movimento de luta pelos direitos dos asilados na Alemanha. Desde que chegou ao país, Yufanyi é membro da organização The Voice, fundada em 1994 e hoje presente em vários países.
Apesar de eles não serem o maior grupo de estrangeiros a aportar em terras germânicas, Denise decidiu focar seu documentário nos
negros por considerá-los a síntese de uma realidade. “A cor ainda tem um papel muito importante na questão do racismo”, diz a diretora.
- Aqui, a maioria das lutas pelos direitos dos refugiados parte dos negros, não porque somos os únicos a sofrer, mas porque somos os que mais sofrem -, completa Yufanyi.
Na última década, o país de origem da maioria dos refugiados que chegou à Alemanha foi o Iraque, mas, em 2010, 16,5% dos requerentes de asilo vieram da África. A Somália está entre as dez origens mais frequentes, correspondendo a 5,4% dos pedidos na Alemanha, de acordo com o Departamento Federal para Imigração e Refugiados.
O documentário “O fardo das fronteiras” – inicialmente batizado de Bleiberecht (direito de permanência) – está pronto. Denise o inscreverá na Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Se selecionado, o filme – com trechos em alemão e em inglês – será lançado durante o evento, entre 9 e 12 de fevereiro de 2012. Depois, a jornalista pretende exibir no Brasil o documentário, que foi financiado pela produtora brasileira Toscographics.
- Todos os refugiados que entrevistei moraram em abrigos por vários anos. Mas o filme não é contado a partir do ponto de vista de vítimas, mas de pessoas que se organizaram politicamente, disso eu faço questão -, ressalta Denise.
Além de Yufanyi, participam do vídeo os refugiados Chu Eben e Florence Sissako, também de Camarões, e Osaren Igbinoba, da Nigéria. Denise usou ainda entrevistas com o professor Andreas Eckert – pesquisador da Universidade Humboldt de Berlim – e com o advogado Ulrich von Klinggräff, que defendeu Yufanyi e Oury Jalloh – refugiado de Serra Leoa que morreu incendiado numa cela de delegacia, na cidade de Dessau, em 2005.
De acordo com Departamento Federal para Imigração e Refugiados alemão, de janeiro a julho de 2011 foram apresentados 27.467 pedidos de asilo no país. Neste mesmo período, mais de 26 mil processos foram decididos, e apenas 1,5% (387) dos requerentes tiveram reconhecido o direito de asilo.
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