Ubirajara Fidalgo e o Teatro Profissional do Negro. Ubirajara Fidalgo tinha apenas 17 anos quando se deu conta de que era “um negro falso” conforme suas próprias palavras em sua biografia ainda inédita. “Era necessário ter uma conscientização de sua origem e de sua própria raça.”, revelou. E esse processo de conscientização foi longo e frutífero ao longo de seus 37 anos. Dando continuidade ao movimento iniciado ainda nos anos 40 com encenações de clássicos do teatro pelo TEN, Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento , o dramaturgo, ator, diretor e produtor nascido em Caxias do Maranhão no Rio de Janeiro fundou o Teatro Profissional do Negro, o T.E.P.R.O.N no inicio dos anos 70. O diferencial era que dessa vez não bastava encenar peças com atores negros. Era necessário que o próprio negro escrevesse sobre as problemáticas raciais no Brasil. Com isso Ubirajara Fidalgo não só tornou-se o primeiro dramaturgo negro no Brasil como foi pioneiro em várias outras frentes; levou, pela primeira vez, o debate racial para os palcos com a participação interativa do público, além de formar e empregar centenas de jovens atores das periferias cariocas. Com o T.E.P.R.O.N Ubirajara Fidalgo encenou uma série de textos autorais que sempre refletiam a problemática do racismo e do preconceito em todas as suas vertentes e através de vários gêneros; fosse em comédias, dramas e, até mesmo, em peças infantis como o musical OS GAZETEIROS, que ficou em cartaz durante os anos de 1982 a 1985 no Teatro Thereza Rachel. Foi lá também que ele encenou junto
com o T.E.P.R.O.N outros dois grandes sucessos da época, o monologo DESFULGA (que significa literalmente o contrario de “fuga”) e drama de Zé Baiano, o nordestino deslumbrado com a cidade grande em FALA PRA ELES, ELISABETE. Ativista do Movimento Negro, autor, ator, produtor e diretor da companhia, Fidalgo desempenhava todas essas funções com maestria, chegando, inclusive, a apresentar um quadro sobre moda, cultura e comportamento durante os anos de 1984 a 1986 no programa ELA com Edna Savaget, na Rede Bandirantes. Seu último trabalho em vida foi a montagem da peça TUTI no Teatro Calouste Gulbenkian, que abordava o racismo nas relações interpessoais através de um inusitado triângulo amoroso entre uma prostituta, um professor de história e uma judia aristocrata. No ano seguinte, em julho de 1986, viera a falecer, aos 37 anos, em decorrência de insuficiência renal. Todavia ainda deixou um acervo com obras inéditas e um livro inacabado que fazem parte do acervo da Associação Cultural e Teatral Ubirajara Fidalgo, administrada pela sua viúva e coprodutora do T.E.P.R.O.N, a produtora Alzira Fidalgo.
Por: Jean Custo.
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