Ele dispensa apresentações. Com mais de 50 anos de carreira e incontáveis sucessos como “Devagar, devagarinho”, “Casa de Bambas”, “Mulheres” e outras centenas (sem exageros) de canções, Martinho da Vila é um dos artistas mais completos da MPB. Compositor de talento nato, ele nasceu para escrever. É autor de mais de 7 livros, além de músicas emblemáticas. O sucesso foi tanto que até na hora de ter filhos, Martinho acertou em cheio, e produziu talentos como Mart’nália. Todos, assim como o pai, são músicos. Recentemente, o projeto “Lambendo a cria”, unindo pai e filhos chegou ao mercado em CD e DVD. Emocionate.
Martinho também tem uma relação muito especial com a escola de samba carioca Vila Isabel, que foi parar até no seu nome. Cheio de histórias para contar, este ano, mais uma vez, ele aposta em um enredo sobre a sua querida Angola, país que mais lhe encanta. Sem mais delongas, confira a entrevista com este “midas” da música popular brasileira.
> Em 1988, você foi campeão do Carnaval carioca com o enredo “Kizomba – Festa de uma Raça”. Este ano, a VIla Isabel vai novamente falar de Angola, e com um samba seu, enredo novamente seu… Enfim, quais são as suas expectativas para esse ano?
Eu sempre fui apaixonado pela África, e com certeza esse enredo veio do coração, assim como tudo o que eu já fiz na escola. Vamos torcer!
> Como funciona o “Kizomba”, que você criou nos anos 80?
O grupo Kizomba conta com várias cabeças pensantes, como a senadora Benedita da Silva, Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho e muitos outros colaboradores. Mantemos as nossas atividades, promovendo eventos de arte e cultura negra, além de prestarmos assessoria a artistas e personalidades africanas que vêm ao Brasil. Já os encontros “Kizomba” terminaram em 1990. O primeiro aconteceu em 1984, embalado pelo sucesso do evento “Canto Livre de Angola” , realizado no ano anterior. Depois fizemos outro a cada dois anos.
Decidi fazer as Kizombas porque senti que o povo brasileiro tem muita curiosidade e pouca informação sobre a mãe África. Além de não
ter muita informação sobra a cultura negra na diáspora. Para se te uma idéia, Angola, tão influente na formação cultural brasileira, só veio ao Brasil pela primeira vez quando realizamos o Primeiro Canto Livre, em janeiro de 1983. Sem falar que, até a realização da primeira Kizomba, o Brasil estava praticamente à parte das manifestações anti-apartheid.
Já participaram cerca de 30 países, entre os quais estavam Angola, Moçambique, Nigéria, Congo, Guiana Francesa, Estados Unidos e África do Sul.
> Você fala com muito carinho da sua mãe, e já escreveu um livro sobre ela. O que ela representa para você?
A minha mãe é uma pessoa incrível, tanto que eu fiz questão de escrever um livro para ela. O livro é uma das coisas que tenho mais orgulho de ter feito em toda a minha carreira. Foi um prazer imenso contar como a minha mãe era, quais eram as coisas que ela dizia, como se comportava. Ela é uma pessoa decisiva na minha vida.
> Como surgiu o “Concerto Negro”?
A ideia do Concerto Negro nasceu em 1988, ano em que, junto com o maestro Leonardo Bruno, iniciei um projeto de integração clássico-popular. Daí, resolvemos dar continuidade ao concerto que mostra a participação do negro na música erudita. Ele já foi apresentado no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, na Sala Cecília Meireles, RJ, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Diamantina, MG e em setembro de 2000 o Concerto Negro foi apresentado no Teatro Municipal do RJ.
> Soube que você é vascaíno convicto. Isso procede?
Claro, a história do Vasco não é só de grandes títulos. O Vasco combateu o racismo, lutou pela inclusão social. Não é só o futebol, o Vasco tem uma presença maior. Sem falar que é o maior clube brasileiro de todos os tempos.
> O seu último CD, “Lambendo a cria” foi um projeto feito em parceria com os seus filhos. Como foi esse processo e como é trabalhar com eles?
Não queria fazer um disco convencional, queria algo mais particular. Assim, a gente poderia ser como é, e aí nasceu o disco. Sempre que os vejo no palco, fico emocionado, babando. Dou pitacos em tudo o que eles fazem, mas tento interferir o menos possível, mas acontece que em todos os trabalhos eles me chamam para opinar. (risos). Deles, o que mais escuto mesmo é a Mart´nália, ela é a maior!
> Como é o seu ritmo de trabalho?
Quando estou compondo ou fazendo shows, não escuto nada porque acho que me influencia. Também não gosto de ver nenhum show, porque se for a algum espetáculo, fico observando e vendo o que pode dar certo, o que é bom e que eu poderia fazer. Então, acho melhor não ir.
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