Preta Gil

Tudo começou de forma simples e despretensiosa, na finada Cinemathequé, no Rio: um espetáculo em que Preta Gil cantava as músicas que lhe agradavam, sem distinções de gêneros ou autores. O repertório eclético, o estilo “preta” de ser – muita comunicação e brincadeiras com a platéia – ganharam o público.

 

Em pouco tempo, o local não comportava mais o que no início deveria ser um pocket-show, para no máximo 200 pessoas. O show mudou-se para um lugar maior, o Espaço Laranja, onde 700 pessoas poderiam curtir a “Noite Preta”. Mas o boca a boca continuou. Em pouco tempo as filas na porta, a procura antecipada por ingressos, a disputa por um lugar próximo ao palco por um grupo de fãs já estabelecido denunciava: a noite carioca via nascer um novo e grande sucesso.

 

Assim surgiu a Noite Preta, que transformou Preta Gil em uma estrela, lançando seu jeito polêmico de ser ao estrelato. A cantora, que dispensa apresentações, é hoje uma das artistas que mais vende discos e que mais faz shows no país. Preta conversou com a Revista Afro sobre preconceito, a carreira, a Noite Preta e o novo CD. Confira:

 

Como você vê o preconceito hoje no Brasil?

A gente vive numa sociedade que ainda é machista, preconceituosa, e isso não é por mal, é por questão de criação. A gente vive num país que foi colonizado, passamos por uma ditadura, então, por educação, as pessoas tendem a não aceitar e não tolerar a diferença. Acho que esse momento que estamos vivendo, talvez até ocasionado por um episódio que aconteceu comigo, especificamente, ele tem um lado positivo, pois faz com que as pessoas coloquem a sua cara à tapa, mesmo que seja uma opinião contrária, de não aceitação, isso faz com que a gente fale ainda mais alto.

 

Você sempre se pronunciou sobre o assunto. É bom deixar o debate vivo?

Esses debates são válidos, mas é óbvio que vem muita violência no meio de tudo. As pessoas tem o direito de expressar sua opinião, mas sem violência. E a violência muitas vezes está em palavras, e elas também machucam.

 

De onde você acha que vem a sua relação com o público gay?

Eu tenho essa personalidade esfuziante, sempre fui metida, exibida. Sempre usei minhas roupas da minha madrinha Gal, sempre gostei de um bom salto, sempre fui uma dragzinha. Não foi à toa, foi de uma maneira natural e espontâneo que o público GLS veio a mim, e se identificou. Acho que a gente fala a mesma língua, rolou uma identificação.

 

“Estéreo”, sua nova música, é uma composição de Ana Carolina. Como é essa parceria?

A  Ana Carolina consegue captar muito bem o que eu sou, ela me conhece muito e acho que ela se permite captar coisas minhas, que talvez ela não escreva para ela. Foi ela que compôs “Sinais de fogo” também. Recentemente nos encontramos e ela veio comentar do sucesso da música dizendo, daqui a pouco vou ter que cantar no meu show. A música fala muito de mim, e de um lado mais ousado da Ana Carolina também.

 

Dá para definir ter o seu pai e o seu filho fazendo contigo uma música, “Drão”, que está no DVD “Noite Preta Ao Vivo”?

Isso foi bem emocionante, porque o meu pai fez essa música quando se separou da minha mãe, em 1980. É uma música linda do meu pai, um dos maiores sucessos dele, mas que era um grande problema para mim, porque me trazia muita melancolia. Depois, num determinado momento, voltando de um show no Canecão, eu fui escutando essa música no rádio. Ela me lembra muito o meu irmão Pedro, que faleceu em um acidente de carro. Acho que foi um toque para eu escutar essa música com mais atenção. Aí, fiquei com vontade de gravar e chamei o meu pai para cantar comigo no DVD. Ele adorou, ficou super feliz de participar do meu trabalho.

 

Aliás, o DVD continua bombando, não é?

Sim, foi gravado na The Week e lançado em 2010. É o maior barato, tem gente que ainda gosta de comprar CD e DVD, não é? Quando eu vejo aqueles fãs com o CD na mão, me dá muita emoção. É um produto tão desrespeitado no nosso país, temos que falar sobre isso. Esse DVD é um registro da minha caminhada como cantora, e da história da Noite Preta, uma história que me orgulha muito. Começamos bem pequenos, fazendo shows semanais num lugar que cabiam poucas pessoas, e hoje conquistamos o Brasil inteiro. Também estou finalizando meu terceiro disco de carreira, que comecei a gravar em setembro.

 

Você abriu um concurso no seu site para novos compositores. De onde surgiu a ideia?

Eu queria dar espaço para novos talentos e até 16 de janeiro, vamos receber e avaliar, escutar todas as propostas. Vamos gravar a música do vencedor no novo CD, que vai ficar lindo! Aguardem!

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