Uma das mais ilustres figuras da cena Hip Hop brasileira, Thaíde é dos poucos artistas que pode se orgulhar de dizer que sua trajetória se confunde com a história do movimento do rap e hip hop no país. Altair Gonçalves omeçou como b.boy na estação São Bento do metrô no início dos anos 80 à frente de uma das primeiras equipes de break do país, ainda na fase embrionária da cultura de rua no Brasil.
Da infância difícil e muito pobre na zona sul de São Paulo, ele conquistou respeito e admiração por onde passou, ganhou espaço na televisão brasileira e hoje faz sucesso também como repórter do programa A Liga, exibido na Band. Thaíde também já exercitou o seu lado ator em três filmes para o cinema e na série da TV Globo, “Antônia”.
Revista Afro: Você sempre defendeu a profissionalização do rap nacional. Como você vê o rap hoje no Brasil?
Thaíde: Acho que a profissionalização está acontecendo de forma lenta, porém precisa. Tem muita gente inexperiente que está aprendendo com quem é mais experiente e vice-versa. Tem que perder o medo de conversar, existe um receio muito grande de um falar com o outro, de um ajudar o outro, mas um dia todo mundo vai embora, então porque vou guardar informação, seria egoísmo e idiotice. Acredito que a molecada de hoje está lendo mais, acessando a internet, buscando informações, e se profissionalizando. Tem muita gente cantando, fazendo passos de dança, e precisamos desse entretenimento urbano em todo o país, com todos os ritmos e estilos.
Revista Afro: Você sempre foi um artista de rap que se mostrou e mostrou o seu som para a mídia. Mas existem artistas que não querem tirar o hip hop do gueto. O que você acha disso?
Thaíde: Eu penso o seguinte: enquanto você tá fazendo seu som e mostrando só pra sua comunidade, todos teus camaradas vão falar que é um som da hora. O desafio é você meter as caras e mostrar teu som pra quem você não conhece. Só aí você vai saber ou não se é bom e só dessa forma você vai conseguir crescer profissionalmente. E a mídia é uma roldana importante para fazer tua mídia girar. Só assim você vai ter um termômetro se é bom ou não. Além disso, tem sim como o rap ser veiculado na mídia e não ser comercial. Dá pra fazer um som de qualidade e de uma forma que a mídia consiga veicular tuas canções.
Revista Afro: No programa A Liga, da Band, você já fez muita coisa. O que mais mexeu com você?
Thaíde: O momento mais difícil eu achei que fosse o da exumação. Depois, o da cracolândia. Mas o mais difícil até agora foi o do salário mínimo! Tive que voltar para aquele passado da vida difícil, tendo de se virar da maneira que pode. Parecia que eu estava pedindo esmola e a ideia do programa era que não me reconhecessem. Teve um momento que eu pedi uma ajuda para uma pessoa e ela me deu esmola. Aquilo me emocionou!
Revista Afro: Como foi a sua infância?
Thaíde: Nasci na Cidade Ademar, na Vila Constância, em São Paulo. E é o seguinte: a gente tinha uma vida muito difícil, mas isso é uma coisa natural para quem vive na favela, infelizmente, principalmente naquela época, que não tinha tanta oportunidade. As pessoas tinham que fazer suas oportunidades. Hoje, você tem trabalhos e profissões alternativas, tem como buscar, é bem diferente daquela época. Eu ia nas casas das pessoas para conseguir o que a gente chamava de “auxílio”, por isso que sempre digo que a zona sul de São Paulo é uma região que eu conheço muito bem. Eu passei a infância procurando esse “auxílio”.
Revista Afro: Como você vê a imagem do negro na TV brasileira?
Thaíde: Ah, é muito bom quando vemos um negro na TV, é bem diferente do que a gente estava acostumado a ver. A necessidade de aparecer bem é tão grande que falta o espaço para a gente aparecer do jeito que tem de ser, então, acho que consigo fazer muito mais que isso. Só aparecer já não é o suficiente, devíamos ter o nosso espaço, o nosso programa de TV, o nosso programa de rádio e não fazer como se fosse um combate. O nosso direito é um direito de cidadania. Só que tem de trabalhar para isso e se preparar mais. E, nessa, eu me incluo.
Revista Afro: O que você pensa sobre a legalização da maconha?
Thaíde: Eu sou favorável sim à legalização! Iria mudar muita coisa, enfraqueceria muita que coisa que precisa ser enfraquecida e,
intelectualmente falando, as pessoas iriam ter consciência de suas responsabilidades.
Revista Afro: Você ainda sofre preconceito?
Thaíde: Isso é como se fosse uma doença crônica, o ser humano não melhora dentro de si. Quando você olha para uma pessoa diferente porque ela tem uma condição financeira melhor, isso mostra que você é pior que aquela pessoa. Eu sempre sofri e sei que vou continuar sofrendo preconceito. A gente sempre atacou essas pessoas e não adiantou nada. A questão é usar a inteligencia e dizer que não precisa fazer nada disso. Precisa ter é força de vontade e inteligência, porque talento e força de vontade são coisas que Deus nos deu.
Revista Afro: O mercado de distribuição musical, no rap, é feito de uma forma muito informal. Muitos MCs disponibilizam gratuitamente suas rimas na internet. Você acha que esse é o futuro da música?
Thaíde: Sem dúvida, isso acontece há muito tempo. Trocávamos fitas K7 e, quando chegou o CD, fazíamos o famoso CD-R. Hoje é tudo na base do pen-drive. O que acontece é que fazendo esse tipo de divulgação informal, o artista consegue ficar mais conhecido e, consequentemente, realizar mais shows. Sou totalmente a favor da música gratuita. Na minha opinião, a música é um serviço que o artista oferece e, consequentemente ele ganhará dinheiro na venda de shows, na venda de merchandising e nos direitos autorais, quando ele recebe. Além disso, ele pode vender seu CD e DVD no shows por preços baixos, como dez ‘pilas’, por exemplo. Os fãs compram, sim. E tem mais: hoje, um artista não precisa lançar CD para estourar nas paradas. Basta ele gravar uma ou mais músicas e jogar na net.
Revista Afro: Qual a sua opinião sobre a nova geração do rap brasileiro?
Thaíde: Criolo Doido lançou um CD em que ele canta Bossa Nova e explora a música de maneira muito respeitosa. Isso eu dou valor! Uma pessoa que, independentemente do estilo que faz, tem a música com respeito. Criolo é uma das melhores coisa que se tem hoje em dia. Tem o Projota, um garoto que tem o dom da rima que também é muito bom, a Flora Matos, e muitos outros.
Revista Afro: É verdade que você é colecionador de vinil?
Thaíde: Eu sou colecionador, gosto muito. Das músicas mais estranhas até as mais simples. Tenho muito vinil, só vinil podre, não tenho vinilzinho bonitinho (são poucos), a maioria está com as capas comidas por traça, embolorado, mas são os meus vinis. Não ponha as mãos neles!
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