Ídolo do samba, Martinho José Ferreira, o nosso Martinho da Vila, nasceu na pequena cidade de Duas Barras, região serrana do Rio de Janeiro. Criado no subúrbio carioca, Martinho se tornou um dos maiores compositores do país. É autor de sambas memoráveis como “Mulheres”, “Devagar, devagarinho”, “Casa de Bamba”, e por aí vai.
Em julho, o cantor esteve na mostra musical “Tempo Livre”, promovida no Oi Futuro Ipanema. Junto do amigo Geraldo Carneiro e do filho Tonico, Martinho cantou seus maiores sucessos, grandes sambas-enredo, falou sobre paternidade, sobre a mãe e sobre o histórico enredo “Kizomba – Festa de uma raça” que deu o título de campeã à Vila Isabel, em 1998. Abaixo, confira as principais declarações do cantor sobre diversos assuntos:
> Pai
Falar sobre o pai sempre emociona Martinho. Seu Josué era um modesto agricultor, que suicidou-se em 1948. Ele guarda boas e tristes recordações sobre o assunto:
- Esse assunto é muito triste para mim. Meu pai plantava, e veio de Duas Barras para o Rio buscando uma vida melhor. Eu costumo dizer que ele perdeu a guerra da vida. Na época em que ele se foi, eu tinha 10 anos. Fiquei um pouco chateado, porque minha mãe ficou sozinha. Mas acredito que existe um motivo para tudo. Se ele não tivesse morrido, eu não seria o que era hoje. Eu e meus irmãos fomos divididos em famílias, pois éramos muitos, e assim, tive uma criação muito boa, que me fez o que eu sou hoje.
> Mãe
Martinho não cansa de dizer o quanto sua mãe foi especial em sua vida. No ano de 2002, ele escreveu o livro “Memórias póstumas de Teresa de Jesus”, no qual conta a história da sua família, narrada pela voz da mãe.
- A minha mãe é tão fantástica que eu fiz questão de escrever um livro para ela. O livro é uma das coisas que tenho mais orgulho de ter feito em toda a minha carreira.
> Casa de Bamba
A clássica composição, de 1968, fala sobre uma casa cheia de sambistas.
- Essa casa era a nossa primeira casa, mas não era exatamente como diz a letra. A casa da qual eu falo era a que minha mãe conseguiu comprar em Pilares, com um financiamento há anos atrás. Estranhamos o preço baixo, e depois descobrimos que a casa era ocupada por várias pessoas. Aos poucos, minha mãe e eu fomos colocando eles para fora, mas com muita calma e amizade. Eles entenderam e gostavam tanto da gente que resolveram sair. Minha mãe odiava essa música, porque ela é muito católica e ninguém em casa falava palavrão e muito menos fazia macumba, como eu canto na música – diverte-se o cantor.
> África
- Nenhum de nós estudou a África na escola. Na nossa história não tinha nada de África. Pensávamos que o continente todo fosse uma grande floresta. Quando eu já estava com outra consciência, em 1972, visitei Angola pela primeira vez e fiquei encantado. Tão emocionado que fiz uma música quando voltei, o “Samba dos ancestrais”.
> Kizomba! Festa de uma raça
- A luta da negritude veio de muito tempo. Antigamente, eram bravos os negros que reclamavam. Ser do movimento negro era mais perigoso do que ser do Partido Comunista! Em 1988, eu pensei, temos que fazer uma grande festa no centenário. Bolei o enredo, e assim, fomos tocando. Quis fazer tudo muito bem África, com roupas de palha e búzios, e tudo aquilo. Fizemos uma festa maravilhosa, teve gente de Angola que veio, levamos uma mesa de comida de verdade até o final do percurso, tínhamos ala de bessanganas e mamuílas. Deu tudo certo. O nome “kizomba” significa uma grande confraternização, mas com um propósito maior. E foi isso que rolou! Foi a coisa mais fantástica que eu já vi até hoje.
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