Apresentador, jornalista, ator e agora também escritor, Alexandre Henderson é um dos negros de maior destaque na televisão brasileira, no comando do Globo Ciência. A simplicidade e a humildade são algumas de suas características mais evidentes, além, é claro, do talento. Com opiniões fortes e pensamento crítico, este carioca acredita que a Educação é a solução para os problemas sociais do nosso país. Conheça mais detalhes de sua vida e carreira na entrevista exclusiva concedida à Revista Afro:
1. Você está há mais de cinco anos atuando em programas do Canal Futura. Como você vê o papel atual do negro na televisão brasileira?
Em 2005, apresentei o “Nota Dez”, programa exibido no Canal Futura, pertencente à série ” A cor da cultura” (www.acordacultura.org.br). Fiz teste com muitos candidatos e fiquei bastante honrado com a minha escolha. Era um projeto que abordava a importância de se trabalhar a questão racial na educação. Um verdadeiro mergulho às nossas matrizes africanas e um resgate da história do negro, que não se resume apenas ao recorte, a partir da vinda dos navios negreiros. Foi criado a partir da lei 10.639/2001. Pude constatar que a questão racial deveria e merecia ser tratada com respeito e conhecimento por parte dos nossos educadores e escolas. A formação da auto-estima, indubitavelmente, começa na idade mais tenra e é obrigação da escola promover esse trabalho com o estudante e sua família.
O programa foi um sucesso e, fiquei muito feliz, porque a partir de 2010, se tornou política pública de educação, com a criação de materiais audiovisuais e didáticos.
Em 2007, comecei a apresentar o Globo Ciência, exibido na TV Globo e Canal Futura, um dos mais antigos programas de divulgação científica do Brasil, com quase três décadas e que faço com muito afeto e dedicação. Não fui escolhido por ser negro, o resultado do “Nota dez” foi um divisor de águas para a minha escolha. Mostrei trabalho e muito empenho. Mas acredito que o fato de ser um ator e jornalista negro à frente de um programa de educação e com muita credibilidade, ajuda a fortalecer a auto-imagem do negro. Fico feliz quando as pessoas me param na rua e falam do orgulho que sentem ao assistirem a um negro falando de assuntos tão complexos com desenvoltura. Sinto que a minha missão mais do que entreter e informar, é também mostrar que podemos, também, nos fazer valer pelo nosso conhecimento. A televisão como veículo de comunicação mais importante no nosso país que adentra a casa de milhões de brasileiros pode ser um canal de promoção de uma auto-referência positiva do negro. Passos grandes já foram dados, mas acredito muito na força do tempo. Creio que bons ventos virão no fortalecimento da nossa imagem. Sou muito positivo em relação a isso.
2. Você é à favor ou contra às políticas de cotas raciais?
Estudei na UFRJ, uma das mais prestigiadas universidades do país. Não entrei por cota, mas tive uma família que privilegiou uma educação de qualidade. Fui aluno do tradicional colégio Santo Inácio, no Rio de janeiro. Nunca fomos ricos, mas aqui em casa educação sempre foi o principal lema. Contei muito com o apoio da minha mãe, uma grande mulher, dessas “candaces” negras que dão o sangue e o suor para que as coisas aconteçam. E tivemos também o apoio das minhas tias maternas. Aliás, fui criado sentindo de perto a força de mulheres negras aguerridas e isso foi crucial para eu entender o quanto a nossa luta tem que ser comprometida.
No Santo Inácio era o único negro da turma. O colégio foi importante para a minha vida. Quando se está num ambiente
predominantemente branco e muito elitizado, desde novo, você tem que aprender a fortalecer, mesmo que na marra, a sua auto-estima. Você aprende a entender o código de vivência dos que, no futuro, estarão nos comandos das Instituições e das empresas e leva o aprendizado para a vida. Não sofri na escola, muito pelo contrário, mostrei minha garra em vencer e me esmerava ao máximo para ser um aluno exemplar, participativo e conseguia muitas vezes sensibilizar meus colegas de turma, em relação a história do negro e a dívida do nosso país.
Na faculdade também convivi com poucos alunos afro-descendentes. Fato muito comum nos cursos mais disputados das universidades públicas. Quanto à cota, eu a defendo num momento inicial, como UTI, uma vez que a educação de base pública não garante, hoje, disputa leal com alunos das escolas privadas de ponta, onde os estudantes são ” adestrados” com frequentes simulados e têm uma carga horária rigorosíssima que lhes garante acesso a um espectro muito maior de informações. Mas defendo também um investimento do Brasil em educação de base. Educação de qualidade. Fui à Alemanha, recentemente, no Estado de Baden Württemberg, um dos mais industrializados do país e, em conversa com a Ministra de Ciência, Pesquisa e Artes, Theresia Bauer, ouvi da mesma que “a melhor forma de se investir na economia, é se investir nos cérebros”. Essa frase me marcou e mostra que educação têm que ser a base de desenvolvimento de qualquer país. Sem educação não há exercício pleno de cidadania. O Brasil precisa rever o acesso a igualdade de tratamentos e oportunidades. A Constituição Federal tem que se fazer valer na prática. É preciso haver mais negros e negras nas universidades públicas e é preciso haver mais negros e negras nas esferas de poder nas grandes empresas, instituições e governo. E negros e negras comprometidas com o desejo de reverter as desproporções desse país.
3. O seu currículo inclui formação em Jornalismo pela UFRJ, além de trabalhos como ator e modelo. O que te deixa mais realizado?
Acho que a vida deve ser vivida a cada dia. Paralelo ao meu ofício de ator, fiz a minha faculdade de jornalismo. Fui dirigido por Sérgio Britto, em ” Ai Ai Brasil”, Diogo Vilella em ” Jornada de um poema”, dividindo palco com a veterana e querida Glória Menezes. Em cinema fui dirigido por Cacá Diegues em “Orfeu” e em TV passei pela batuta de diretores como Ignácio Coqueiro e o saudoso Herval Rossano. E em publicidade tive a oportunidade de fazer diversas campanhas nacionais e internacionais. Trabalhei como modelo também. Fiz trabalhos que me deram uma grande alegria.
Fiquei conhecido mesmo como apresentador, por fazer trabalhos que mostraram a minha cara na TV e com veiculação há um bom tempo. E sou muito feliz em apresentar um programa que é respeitado no meio artístico, jornalístico e acadêmico.
Faço a minha parte, me empenhando ao máximo e estudando bastante, porque os temas, muitas vezes são complexos e a minha função é tornar tudo palatável ao grande público.
Acho que na vida temos que agarrar as oportunidades que vão aparecendo. Sou muito grato ao Futura e à Rede Globo pela oportunidade de mostrar meu trabalho no Globo Ciência. As sementes estão sendo plantadas, não tenho dúvidas em relação a isso. Tenho só que acreditar no poder do trabalho e na força de Deus.
4. Como você vê a Educação hoje no país?
Acho que o Brasil tem projetos bem bacanas ligados a educação de norte a sul. Ações estão sendo feitas, mesmo que, muitas vezes, não apareçam na mídia. Mas acho que a educação de base( ensino fundamental e médio) merecem mais atenção por parte do Governo e da sociedade. É preciso criar nesse país uma cultura de educação sólida e integral. A sociedade tem que cobrar isso. Eu acredito que é a educação de extrema qualidade que poderá ser o principal fator de transformação do nosso país. Não dá mais para se pensar a educação, somente objetivando melhorias de índices. Urge o desenvolvimento de escolas que realmente preparem seus alunos oriundos das camadas mais pobres da sociedade para competirem de igual para igual com alunos mais abastados. Se vivemos em uma sociedade competitiva, em que os acessos se dão através de concursos ou outros meios seletivos, que se faça pelo menos a possibilidade de haver igualdade entre os participantes desses processos. O que não se pode haver mais é a invisibilização do problema da desigualdade de acessos e do desequilíbrio social. As discussões sobre o tema têm que partir para o plano da ação.
5. Você tem planos de voltar a atuar?
Ano que vem farei um filme do diretor Renato Cândido, chamado ” Larissa”. A trama discute a questão do acesso e enfrentamentos dos negros ao mercado corporativo. Fiquei honrado com o convite. E a oportunidade de através do meu presonagem contar uma narrativa que mostra o negro em ascenção.
6. Alguma vez você já se sentiu preterido por ser negro?
Claro que nossos enfrentamentos são grandes. Quando um negro dá o primeiro grito ao nascer, em que se abre os pulmões, a semântica é ” vai à luta, coragem, meu irmão, porque não dá para perder a viagem!!”.
Mas acredito que nossos sonhos, também, podem ser grandiosos. E isso é o que me move. Estar a frente de um programa há mais de cinco anos e sendo reconhecido por um trabalho de qualidade é a realização de um desses grandiosos sonhos. É preciso, desde cedo, nos libertarmos do discurso da vitimização. A história foi cruel, o passado dos nossos ancestrais e muitos antepassados não foi fácil, mas nossos olhos precisam estar voltados para o estado da esperança no hoje e no amanhã.
7. Você recebeu o prêmio Raça Negra em 2009 de melhor apresentador, além de uma homenagem da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Espírito Santo, por seu trabalho. Apresentar um programa sobre ciência foi um desafio na sua carreira?
Com certeza. Não é fácil lidar diariamante com temas tão complexos e traduzí-los. Tenho que informar, mas cabe a mim entreter também, tornar o tema atraente, fazer a conexão do conteúdo com o dia-a-dia das pessoas. Claro que a educação básica que tive de qualidade me ajudou muito, porque tive uma formação bacana em ciências exatas e biológicas. É um trabalho que exige dedicação e estudo diário. E o interessante é a possibilidade de adentrar em várias áreas do conhecimento e aprender a cada dia.
8. Você também é apaixonado por ciência?
Aprendi que a ciência está presente em tudo. Quando nascemos, nos nossos sentidos, quando preparamos um alimento, quando partimos, com todos os processos bio-químicos envolvidos e por aí vai… E o programa me permitiu olhar a ciência como algo que está em nossos cotidianos. Basta olharmos em nossa volta a quantidade de produtos e tecnologias provenientes de estudos científicos. Acredito também no poder qua a ciência tem na geração de melhoria de qualidade de vida das pessoas.
9. Li que você também tem com planos de escrever um livro. Fale mais sobre esse projeto e em que estágio ele se encontra.
Estou lançando pela editora Uirapuru, especializada em livros infanto-juvenis a obra “O menino, a goiabeira e a porta-bandeira”, que mostra o quanto a arte e educação podem mudar os rumos de jovens de comunidades. Tudo contado a partir do olhar positivo de um menino negro que é o versador de tudo o que aprende na vida e na escola. Um Cartolinha da favela. Estou super feliz. O projeto já está na fase de finalização das ilustrações e brevemente haverá o lançamento do livro. Foi feito com muito amor e torço para que emocione os leitores.
10. Como você vê o trabalho de pesquisas científicas no país? Estamos atrasados ou equiparados com outras nações?
Viajo o país, conversando com estudantes e pesquisadores de universidades, centros de referência , escolas técnicas que fazem pesquisas de norte a sul do nosso país. Desde as que contam com laboratórios mais modernos e equiparados, até as que são feitas de maneira de modo mais rudimentar, sem grandes aparatos. O Brasil hoje figura entre as sete maiores nações do mundo, mas investe em pesquisas cifras abaixo de 2% do PIB. A Alemanha, por exemplo, investe mais do que 5% do PIB em pesquisas. Acredito e tenho fé de que o crescimento da economia brasileira vai exigir do governo maior atenção a educação e por conseguinte à pesquisa científica. Desenvolvimento econômico e industrial de um país se faz também com cultura de educação e incentivo à pesquisa de base e aplicada. O que não se pode negar é o patrimônio humano que temos em nosso país.
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