Ela nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Botafogo, Zona Sul carioca, onde mora até hoje. Exceto por cinco anos, período no qual cursou a faculdade de Geografia na UERJ e residia no Grajaú. Rafaela Bastos tem 29 anos e, desde que se entendo por gente, sempre esteve ligada ao carnaval. Mais uma das passistas do documentário “Mulatas, um tufão nos quadris”, da Carioca Filmes, conta sua história:
“Eu não tinha a menor idéia do que era ser passista, a impressão era a da maioria. Meninas vulgares, de vida fácil, cujos sonhos eram espelhados nas próprias lantejoulas que vestiam, ou seja, não iriam muito adiante do até então ‘mundinho’ do Carnaval. Mulheres que, para mim, não tinham a menor idéia de que essa postura era degradante e que não as ajudaria a mudar de vida, a ascender socialmente, a principal justificativa para os erros e acertos da função.
Ao chegar à Mangueira esta questão foi apagada da minha memória, não existia mais o estereótipo supracitado. Era aniversário do meu avô, Ed Miranda, então presidente da velha guarda do GRESEP Mangueira. Ao pisar em solo verde e rosa, fui tomada por uma vontade, que considero hoje e, até mesmo acredito e aceito, ter sido um chamado quase que espiritual sabe? Como as pessoas que atravessam o caminho de Santiago para se descobrirem? Eu me descobri no samba. Antes eu odiava samba e carnaval pelo o fato de sempre ter sido obrigada a freqüentar as quadras, pois meus pais adoravam esta vivência e não tinham com quem me deixar. Inclusive, eu não desfilava e ficava com meu pé no centro da cidade esperando minha mãe e minhas irmãs passarem pela avenida. Uma tortura, principalmente para uma garotinha de sete anos!
Em 2011, completarei 13 anos de avenida. Depois que fiz o teste e entrei, até porque meu avô foi bem claro: ‘Se você não sambar eu mesmo te tiro!’, existiu a necessidade de aprender a sambar como as meninas do morro. Demoraram a entender que eu era mangueirense de verdade e que eu não estava ali para brincadeira, de curta passagem. Superado este momento inicial, foi muito bom, porque nunca precisei fingir que preferia a praia à laje, as roupas sensuais às sexies, à diplomacia ao bater de frente (discutir e resolver no calor das questões), fui com calma e sendo eu mesma. Hoje, todos me respeitam e dizem que eu sambo bem, que represento bem a sua escola, cheguei a ouvir da filha D.Neuma que o meu corpo é um dos mais bonitos da Mangueira. Imagine isso?
Nunca pensei em ascensão social através de uma escola de samba, mas sim cultural e hoje percebo que consegui. Ser uma pessoa culturalmente rica, conhecendo lugares e levando cultura para onde for possível. O sonho da bailarina foi totalmente transmutado para o fato de ser passista e amplamente aproveitado e adorado. Sinto-me orgulhosa por esta função.
Eu trabalho para a empresa Marte Engenharia Ltda, uma empresa como o nome diz de engenharia ambiental, a qual realiza prestação de serviços para Eletrobrás FURNAS (antiga Furnas Centrais Elétricas), objeto do meu trabalho. O samba interfere sempre. Desde coisas banais como coincidência de horários até coisas mais sérias como descobrirem no trabalho que sou passista, tenho que mostrar que não é porque eu sou do mundo do samba, que todo lugar que eu vou vira um carnaval… estou sempre sendo testada… mas, sou feliz, não mudaria nada na minha história até hoje!”
Rafaela Bastos também é apresentadora do programa “Mulatas”, do Canal Brasil .
http://revistaafro.ning.com/video/mulata-rafaela-bastos
Foto: Divulgação / Diego Mendes
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