O povo sofre com os cortes de Doria na área Social

Por mais de quatro horas, Carlita Viana Pereira, 50 anos, aguardava atendimento na sala de espera do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) de Itaquera, na zona leste de São Paulo. O dia frio não a inibiu de tentar resolver problemas com o Cadastro Único, que dá acesso ao Bolsa Família, um alívio financeiro para a abatida senhora responsável por sustentar, sozinha, os dois netos na periferia de São Paulo.

“Cheguei aqui às 8 da manhã e peguei a senha. Às 9 horas ainda não tinham me atendido. Aí a moça falou que eu poderia levar minha neta na escola e voltar. Voltei e ainda estou aguardando.” Já era 13h30. “Também não consegui o benefício do meu neto. O cadastro está feito já tem um ano, mas não recebi nenhuma cartinha de confirmação.”

Regina Moura de Souza também aguardava impaciente com seu filho de 12 anos por um atendimento. A mãe, de 44 anos, conta que sua primeira vez no Cras Itaquera foi em 2015. “Cheguei aqui às 8 da manhã e saí daqui às 2 da tarde.” O filho faltou à escola para acompanhar a mãe, desempregada. Após três horas de espera o garoto corria na área externa do sobrado em busca de qualquer distração.

Apesar do número reduzido de pessoas na espera na tarde de 22 de agosto, quando a reportagem esteve no local, Regina e seu filho ainda não haviam recebido atendimento.

A tarefa de inclusão e procura de cidadãos no Cadastro Único e nos programas sociais ofertados é das prefeituras. É também função do Poder Municipal promover o recadastramento das famílias.

Segundo levantamento da vereadora Juliana Cardoso (PT-SP), a precarização dos Cras e dos Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) ocorre em um contexto de demissões de 200 servidores públicos lotados em cargos comissionados. No início do ano, o prefeito João Doria Jr. anunciou um corte de 3.520 comissionados em diversas secretarias.

Para Ricardo de Lima, membro do Conselho Municipal de Assistência Social (Comas), o funcionário do Cras vive sobrecarregado, uma vez que tem de “supervisionar o serviço da assistência social no território, atender o Cras e levar as demandas, muitas vezes, ao Ministério Público. Com isso, criam-se as filas de agendamento e senhas, o que não era para existir”. Para o assistente social, há a necessidade de contratar pelo menos 720 funcionários para os Cras e Creas.

A espera no atendimento e a desordem na fila do cadastro único revelam consequências diretas da frágil situação encontrada na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo.

Cortes nos serviços de Abordagem Social

Ao mesmo tempo que se cortam verbas, a Portaria 41/2017, do fim de julho, reduz o atendimento dos Serviços Especializado de Abordagem Social (Seas) durante a manhã e transfere profissionais para o período noturno.

Segundo a gestão Doria, faltam funcionários à noite e os servidores do período matutino, já em aviso prévio, não serão demitidos, mas sim, realocados no período noturno. Sabará alega que são 108 pessoas em situação de aviso prévio.

A decisão é contestada pelos assistentes sociais do Seas. Eles argumentam que a baixa oferta do serviço da manhã é prejudicial para as pessoas em situação de rua já vinculadas aos assistentes sociais.

Damiso Faustino, trabalhador do Seas da Vila Maria, na zona norte da cidade, é um dos funcionários em aviso prévio. O assistente social critica a ausência de critério na aplicação da medida, já que trabalha no período noturno.

“Essa portaria dizia que as ONGs deveriam reduzir os seus quadros para esses trabalhadores serem remanejados no período noturno, mas não houve nenhum diálogo ou critério nas demissões.” Segundo Faustino, são mais de 400 trabalhadores em aviso prévio e sem perspectiva de recolocação.

Para a ex-secretária da pasta e ex-vereadora Soninha Francine (PPS-SP), o secretário Filipe Sabará não compreende o papel do Seas. “Evidentemente, ele entende que é um serviço de convencimento para a pessoa sair da rua. Ele desconhece o vínculo e o acompanhamento feitos pelos profissionais”, afirmou em audiência pública na Câmara Municipal, em 21 de agosto.

Por: Carta Capital